rationale

Porquê o Ciclo de Conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”?

Podemos designar por “ciências do artificial” aquelas teorias e práticas científicas que procuram realizar em máquinas concebidas ou construídas pelos humanos certos comportamentos ou capacidades que tenham sido definidas como objecto de atenção por terem sido consideradas típicas dos próprios humanos ou de outros animais que encontramos na natureza. Exemplos são o xadrez computacional ou, mais recentemente, o futebol robótico.

A Nova Robótica – em particular a Robótica Colectiva, que investiga as formas de estruturar múltiplos robots num mesmo cenário e de os controlar em vista à concretização de uma tarefa – representa um significativo avanço conceptual relativamente a três grandes esquecimentos da Inteligência Artificial clássica: supera o esquecimento do corpo, ao corporizar a inteligência em robots fisicamente realizados; supera o esquecimento do mundo, ao situar os robots em ambientes físicos em larga medida naturais; supera o esquecimento dos outros, ao colocar a inteligência no colectivo, como inteligência da interacção.

A robótica colectiva, posicionando-se como um dos domínios mais prometedores da nova vaga das ciências do artificial, alimenta-se cada vez mais de uma inspiração pluridisciplinar. A biologia tem desempenhado um papel proeminente no fornecimento de “metáforas inspiradoras”, por exemplo com os insectos sociais. Contudo, a inspiração biológica pode revelar alguns limites quando se pretenda que tenha força explicativa sobre formas sociais. A tentativa de perceber fenómenos com algum tipo de dimensão social apenas à custa da biologia, ou de “sociedades biológicas” (colectivos em que provavelmente tudo o que nos parece social é biologicamente determinado), pode deixar-nos longe de qualquer compreensão mais séria de sociedades sofisticadas, de sociedades em cuja constituição e manutenção joga algum papel a deliberação de agentes autónomos com um grau elevado de individualidade.

É, então, compreensível que, depois das metáforas biológicas, a robótica colectiva chegue a uma nova geração de metáforas inspiradoras: a inspiração que se encontra nas ciências da sociedade. Algumas experiências de robótica colectiva recorreram, por exemplo, a modelos económicos para alcançar esse alargamento da inspiração. (Um exemplo são os sistemas de controlo de múltiplos robots implementados como versões computacionais de mecanismos de mercado.) Outras experiências recorrem a conceitos criados para dar conta de aspectos fundamentais da sociabilidade humana. (Um exemplo é a implementação robótica de comportamentos de interacção a partir do conceito de “compromisso conjunto”.) Vários projectos do Instituto de Sistemas e Robótica, pólo do Instituto Superior Técnico, investem há alguns anos na exploração dessa linha de desenvolvimento. E este ciclo de conferências, subordinado ao tema geral “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”, que vai em 2011 para a sua terceira edição, integra-se nesse esforço de fertilização cruzada e multidisciplinar.

Julgamos que o programa desta edição confirma os Ciclos de Conferências “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais” como espaços de encontro entre disciplinas científicas que podem ajudar a compreender as modalidades de convívio entre múltiplos entes naturais e múltiplos entes artificiais, no presente e no futuro. Engenheiros e cientistas, com interesses que vão desde as ciência da computação e a robótica à economia, da linguística à biologia , bem como filósofos, têm ajudado a aprofundar um percurso de fertilização cruzada entre disciplinas. Seremos capazes de projectar sistemas de múltiplos robots com comportamentos sociais sofisticados, ou mesmo de os colocar em interacção persistente com múltiplos humanos? Estamos a caminho de conviver com criaturas artificiais que sejam parceiros ao mesmo título que as criaturas naturais? Ou andamos já há muito a tratar os humanos como criaturas artificiais? O que podemos aprender da sociabilidade dos humanos estudando outros primatas? Este feixe de interrogações renova-se na terceira edição destes ciclos de conferências, com o regresso ao temas das populações de células, um olhar sobre a interacção social entre humanos e robôs, o questionamento ético de algumas situações onde robôs e humanos partilham o mesmo espaço, uma atenção à organização social de outros primatas para nos permitir olhar para o nosso próprio caso com outros olhos.

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